Revista Mercado Automotivo

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Revista Mercado Automotivo | Edição 230

MATÉRIA DE CAPA - Edição 230: Março DE 2014
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Por Cléa Martins

No final do ano passado, a representante comercial Eliane Gonçalves, proprietária de um Fiat Palio 2010, trocou os amortecedores do carro. Para economizar, optou por uma marca recondicionada. O resultado, bastante óbvio para quem trabalha no setor de aftermarket automotivo, não foi nada satisfatório. O veículo, que já não estava confortável, passou ainda a fazer barulho. Depois de três meses, a motorista, que arcou sozinha com o prejuízo da má escolha, teve que refazer o serviço.

Essa história, que já se repetiu muitas vezes e que até hoje ainda é bem comum, mesmo com a internet massificando informação e até reclamações sobre produtos ruins e más práticas de mercado, deve se tornar mais rara. É que a indústria de autopeças, através do Sindipeças – Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores – solicitou ao Inmetro – Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia – a regulamentação e certificação de componentes automotivos, como os amortecedores.

No caso dos amortecedores, se tivesse escolhido um produto de marca confiável, Eliane provavelmente não teria passado por esse problema. A fabricação e mesmo a importação desses componentes já é feita sob o crivo das normas da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas – e os componentes testados e aprovados pelo Inmetro, saem de fábrica com selo do instituto desde janeiro de 2013. Em julho deste ano, as regras ficam ainda mais restritas e todos os amortecedores comercializados no mercado de reposição nacional precisarão apresentar o selo de conformidade técnica do Inmetro.

A iniciativa é comemorada por todos do setor, que veem na certificação uma forma de regulamentar o mercado e oferecer mais segurança ao cliente final. “A medida garantirá a comprovação da qualidade das peças e dará mais confiança ao consumidor que poderá identificar com mais facilidade a qualidade dos produtos. Isso fortalece o mercado de reposição como um todo e elimina os oportunistas”, afirma Elias Mufarej, conselheiro do Sindipeças para o mercado de reposição e coordenador do GMA – Grupo de Manutenção Automotiva.

Muito além dos amortecedores

Hoje existem 14 componentes e/ou conjuntos automotivos contemplados pelo processo de certificação (confira tabela). O primeiro deles, com portaria publicada no Diário Oficial da União em outubro de 2008, foi o catalisador. Desde então, nenhum conversor catalítico automotivo poderia sair de fábrica ou ser importado sem o selo do Inmetro. No aftermarket, a exigência da certificação para o item vale desde abril de 2011. Assim, qualquer oficina, loja ou distribuidora de autopeças que for flagrada comercializando produtos que não tenham a certificação pode ser multada.

A certificação já é obrigatória também para quem produz ou importa outros componentes para o mercado nacional. Em 2012 foi vez dos vidros de segurança, temperados e laminados, para os veículos rodoviários passarem pelo teste do Inmetro. Além deles, os líquidos para freios hidráulicos nacionais e importados também foram avaliados. Para eles, a comercialização na reposição com selo chegou antes. E desde fevereiro deste ano, todos esses itens precisam do aval do instituto para ser vendidos. No caso dos vidros, a obrigatoriedade do selo na reposição está agendada para dezembro deste ano.

Se a história de homologação pelo Inmetro começou em 2008, foi em 2011 que concentrou o maior número de itens contemplados pelo processo – nove no total. No que se refere à fabricação e à importação, oito deles passaram a ter o selo como mandatório no ano passado – componentes e conjuntos como rodas automotivas, amortecedores, bomba elétrica de combustível para motores de ciclo Otto, buzinas, pistões de liga leve de alumínio, pinos e anéis de trava, anéis de pistão, bronzinas e lâmpadas.

A reposição teve mais tempo para se adaptar às exigências da certificação compulsória. Até hoje, apenas catalisadores e mais recentemente os líquidos para freios hidráulicos para veículos carregavam consigo a exigência do selo Inmetro. Só que, a partir do segundo semestre deste ano, sete novos itens ou conjuntos serão acrescentados a essa lista. Primeiro será a vez das baterias de chumbo-ácido, em 18 de junho. Depois, a partir de 25 de julho de 2014, amortecedores, buzinas, pistões de liga leve de alumínio, pinos e anéis de trava, anéis de pistão, bronzinas e lâmpadas também precisarão carregar o selo do instituto.

Ainda na reposição, as rodas, que são produzidas em conformidade com as normas da ABNT desde janeiro de 2013, precisarão apresentar, em 2015, o selo Inmetro também no ponto de venda. Já os terminais de direção, as barras de direção e de ligação e os terminais axiais devem obrigatoriamente carregar o selo do Inmetro a partir de 2016, embora sua produção já tenha que atender as normas técnicas exigidas a partir de novembro deste ano.

Segundo o Sindipeças, outros componentes estão em processo de certificação, como radiadores, material de atrito para freios e aditivo para arrefecimento. Os segmentos de motocicletas, motonetas, ciclomotores, triciclos e quadriciclos também devem receber em breve as primeiras peças certificadas – como pinhão, coroa, corrente de transmissão e escapamento. Além disso, a ABNT já está trabalhando na elaboração de normas para mais 14 componentes e outros oito devem ter estudo iniciado em breve.

Processo

A criação de normas técnicas é crucial para o processo de certificação, já que são os parâmetros apontados pela ABNT que orientam os testes do Inmetro. “São as normas de produtos que garantem a qualidade e a segurança dos usuários através de ensaios de resistência e durabilidade, ressaltando que estas normas atendem aos padrões internacionais e são adequadas ao mercado brasileiro”, explica Mufarej.

Segundo ele, a Associação mantém um grupo de estudo voltado ao setor automotivo – CB05 –, que é formado por técnicos de fábricas, montadoras e também integrantes de laboratórios e universidades: “É importante destacar que existe todo um procedimento a ser seguido para a elaboração de normas técnicas baseado em padrões internacionais de qualidade para os produtos em questão”.

Só depois que uma norma é publicada pela ABNT é que se inicia de fato o processo de certificação. “A norma determina todos os aspectos e características dos produtos. Mas ela precisa ser publicada para depois darmos início ao processo de certificação compulsória, que vem da publicação da portaria por parte do Inmetro”, explica o representante do Sindipeças.

Os prazos de criação de uma norma podem variar de seis meses a dois anos. A partir da data de publicação da portaria do Inmetro, são estipulados prazos para adequação dos fabricantes dos componentes (geralmente de 18 meses dependendo do produto). Depois, distribuidores, varejistas e aplicadores têm mais 18 meses em média para se adaptarem às novas regras.

Mufarej explica que a escolha dos itens pautados pela ABNT varia de acordo com a demanda dos associados do Sindipeças, do Inmetro ou de outros órgãos do governo ou da sociedade. Mas que, sem dúvida, os itens de segurança têm sido privilegiados.

Para Horácio Meza, chefe de Trade Marketing da divisão Automotive Aftermarket da Robert Bosch, a certificação compulsória de autopeças protege não apenas o consumidor, mas o meio ambiente. “As normas técnicas consideradas para a certificação são elaboradas em conjunto com todos os fabricantes e, para isso, considera-se as tecnologias mais atuais que garantem mais segurança, melhor performance e menor consumo”.

Na Bosch, que participa efetivamente dos grupos de normatização, a bomba de combustível foi o primeiro produto a receber a certificação. Mas outros produtos com selo de conformidade, como buzinas, baterias e fluído de freio, também fazem parte do portfólio da empresa. “O processo de certificação é longo, e depende de vários fatores técnicos e comerciais. É difícil prever quais as futuras certificações. Das linhas da Bosch a mais relevante agora é a de material de fricção (pastilhas e lonas)”, diz Meza.

Má procedência

Elias Mufarej acredita que a certificação compulsória de autopeças homologada pelo Inmetro vem para coibir a falsificação e comercialização de peças piratas no País. “Isso já aconteceu em outros setores, como o de brinquedos (veja box Exemplo Abrinq). A certificação compulsória cria requisitos para importação de produtos sem procedência comprovada que também precisam ser homologados pelo Inmetro, o que dificulta a importação de produtos piratas e falsificados”, explica.

É claro que ninguém é tão ingênuo de pensar que esse será o fim das falsificações, mas esse já é um passo enorme na direção de aumentar a coerência no mercado de reposição de autopeças, ressalta Roberto Yoshiyuki Hojo, gerente de Qualidade e Desenvolvimento de Produtos da Mahle Metal Leve: “Com relação a peças piratas/falsificadas, possivelmente haverá a necessidade de serem tratadas a ponto, visto que quem pratica contravenção continuará a falsificar inclusive os selos do Inmetro. Porém, essa é uma dificuldade adicional para os falsificadores e que vem para somar-se a outros trabalhos já promovidos pela indústria”.

Para Hojo, o ponto de maior relevância do trabalho é o de adequação das peças comercializadas no nosso mercado nacional: “Todos deverão atender a um nível mínimo de qualidade, o que elimina a concorrência desleal de peças de baixa qualidade, que antes não atendiam a esses requisitos”.

A Mahle, que também participou ativamente de todo o processo de implantação da certificação compulsória, assim como da elaboração dos RACs (Requisitos de Avaliação da Conformidade), tem em sua lista de produtos certificados pistões de alumínio aplicados em motores do ciclo Otto e a Diesel, pinos de pistão, anéis de pistão, bronzinas planas, bronzinas planas com flange, arruela de encosto e buchas. Agora está solicitando ao Inmetro a inclusão da camisa de cilindro para motores de combustão interna na lista de produtos certificados.

A certificação de produtos importados funciona de forma parecida à de produtos fabricados no Brasil. O importador entra no processo de certificação e precisa comprovar que o produto que comercializa atende às exigências estabelecidas através dos ensaios que constam nos regulamentos seguidos pelo Inmetro.

Conscientização

Se o processo de certificação não é simples, o de fazer com que ele seja compreendido pelos profissionais do setor e também pelos donos de carros muito menos. Por isso, o tema sobre certificação de autopeças já vem sendo propagado em mídias do setor desde 2008. “É claro que ainda falta informação sobre o assunto. A indústria tem feito a divulgação, mas é difícil atingir o mercado de forma geral, pois é muito pulverizado. Matérias como esta são de extrema importância para levar a informação à ponta da cadeia”, diz Mufarej.

Segundo ele, o Sindipeças tem levado informação para o setor e falado sobre o tema em veículos de comunicação de abrangência nacional. Além disso, a entidade está elaborando uma cartilha com um resumo de todas as portarias do Inmetro relacionadas aos componentes automotivos. Em breve esse material estará disponível no site do Sindipeças. Esses dados são usados ainda pelos fiscais do Ipem – Instituto de Pesos e Medidas –, responsável pela fiscalização do comércio.

Na Affinia, que também participa do grupo de estudos de elaboração de normas técnicas da ABNT e teve os amortecedores como primeiro item certificado, o trabalho de conscientização do consumidor já começou. Embora a comercialização de amortecedores com obrigatoriedade do selo comece a partir de 25 de julho deste ano. “Estamos abordando esse tema já há algum tempo. Já fizemos uma cartilha que foi distribuída gratuitamente no ano passado para informar varejo e oficinas, e vamos lançar outra justamente para reforçar esta informação ao mercado”, afirma Sérgio Montagnoli, diretor de Vendas e Marketing da empresa.

Para o executivo, a segurança em adquirir um produto com um mínimo de qualidade comprovada pela chancela do Inmetro é o principal mote do programa. No entanto, “o consumidor final e também os aplicadores não podem abrir mão de comparar os diversos níveis de qualidade e durabilidade das marcas certificadas uma vez que o Inmetro atua no sentido de prover o limite mínimo”.

Montagnoli acredita que a conscientização do cliente final deva acontecer por meio da publicação de matérias na mídia, nos sites de fabricantes e até no site do próprio Inmetro, que tem a lista de fabricantes certificados por produtos. Contudo, ressalta que “quem, na maioria das vezes, compra ou indica a peça ao dono do carro é o mecânico. Por isso, ele tem sido o foco das informações [divulgadas pela Affinia]”.

Fiscalização e validação do selo

No comércio, a fiscalização será feita a partir de denúncia e o Ipem é o órgão responsável. Em caso de irregularidades, o comércio será autuado e pode ser multado pelo instituto em valores que variam de centenas a milhões de reais. Todos os elos da cadeia de reposição de peças serão inspecionados, inclusive as concessionárias, considerando que dentro de cada portaria existem particularidades, como a isenção de peças para veículos com produção descontinuada, entre outras.

Cada uma das certificações possui prazos estabelecidos. No caso da Portaria 301, publicada em 2011, por exemplo, a validade do certificado é de quatro anos e os ensaios precisarão ser renovados anualmente.

 

 

 

EXEMPLO ABRINQ
Há 20 anos os fabricantes de brinquedos no País tomaram uma decisão acertada: recorreram ao Inmetro para tratar da certificação dos brinquedos comercializados no País. A medida não apenas evita que produtos de péssima qualidade sejam comercializados livremente no mercado brasileiro como torna a concorrência neste mercado mais ética. “A certificação nos permite separar o bom do ruim e proporcionar mais segurança para as crianças”, explica Synesio Batista da Costa, presidente da Abrinq – Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos.

Segundo Synesio, a compreensão pelo mercado e pelo consumidor final da importância do selo foi gradual. Na época, 200 milhões de brinquedos eram certificados por ano. Hoje, graças à conscientização do mercado, algo em torno de 4 bilhões de brinquedos passam pelo crivo do Inmetro anualmente.

Para conseguir que o mercado entendesse e passasse a exigir o selo, a Associação contou com o apoio da mídia, enfatizando sempre a segurança do brinquedo com selo do Inmetro e a questão dos brinquedos ilegais e das matérias-primas inadequadas usadas na fabricação dos brinquedos, como a tinta com chumbo.

Atualmente, o setor de brinquedos tem avaliações que consideram requisitos como segurança, qualidade e resistência, entre outros fatores.
Para o setor automotivo Synesio dá a dica: “O caminho da certificação é o ideal, assim você pode dizer que seu produto tem garantia, é seguro, até porque é atestado pelo Inmetro, que tem o reconhecimento da sociedade brasileira”.

Design: Agência Bcicleta
Sistema: alc propaganda - criação de sites

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