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Revista Mercado Automotivo | Edição 233

MATÉRIA DE CAPA - Edição 233: Junho DE 2014
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Por Cléa Martins

Essa não é a primeira Copa do Mundo sediada pelo Brasil. Em 1950, o País recebia a quarta edição da Copa do Mundo da FIFA de Futebol. As partidas aconteceram nas cidades de Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre,Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

Naquela época, sob o comando do então presidente Getúlio Vargas, o País ainda era fortemente rural, com população de 52 milhões e PIB (Produto Interno Bruto) de 93 bilhões de dólares. Entre os principais problemas, seca, fome, saneamento básico e educação.

De lá para cá, algumas coisas mudaram. No futebol, o País, que perdeu o título em 1950 para o Uruguai, na final no Maracanã, conquistou cinco outros campeonatos. Na política, o suicídio de Vargas tomou as manchetes. Dando espaço depois para o entusiasmo do crescimento industrial propiciado pela era Juscelino. Veio depois a Ditadura Militar. E, das ruas, vieram os gritos por Diretas Já, e todo o processo de restabelecimento da democracia. No bolso do brasileiro o real ganhou a briga contra a temida inflação galopante. O País voltou a crescer e passou a figurar entre os que mais se desenvolvem no mundo – bloco chamado de Bric (Brasil, Rússia, Índia e China).

Foi justamente em meio ao entusiasmo do crescimento econômico que o então presidente Lula conseguiu emplacar o Brasil como sede da Copa de 2014. “A Copa será uma grande oportunidade para acelerar o crescimento e fundamental para o desenvolvimento do nosso Brasil”, disse ele, em 2010.

A expectativa de que essa seria a chance de rever o que estava errado em muitas áreas e, com mais investimentos, mudar o País imperava, apesar de alguns especialistas alertarem: “A ideia de que a Copa vai impulsionar a economia é um mito”, disse à BBC Brasil o jornalista britânico Simon Kuper, autor de Soccernomics, escrito em parceria com o economista britânico Stefan Szymanski.

Quatro anos depois da declaração de Lula e depois de muito trabalho, retrabalho, greves, mortes por acidente de trabalho, investimento e protestos, a Copa de 2014 chega ao seu ponta pé inicial sem a mesma magia depositada pelos brasileiros nos eventos de outros anos. A insatisfação da população com os serviços públicos e velhos problemas respingou no mundial, que foi alvo de protestos de rua e das greves nas principais capitais do País no último ano.

Os gastos públicos – federal, estaduais e municipais – com o evento somavam, até o início deste ano, cerca de R$ 26 bilhões, segundo dados do TCU (Tribunal de Contas da União). Um investimento relativamente baixo quando comparado aos gastos públicos com educação, que é de R$ 280 bilhões por ano ou mesmo com os R$ 30 bilhões que devem ser investidos na construção da Usina Belo Monte, no Pará, segundo apontou reportagem do jornal Folha de S. Paulo.

Para o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, que participou do Bom Dia, Ministro do dia 13 de maio, a repercussão negativa do evento se deve, em parte, à mídia brasileira que faz uma campanha contra a Copa e isso acaba sendo noticiado também pela imprensa mundial.

Ele ressaltou ainda em sua entrevista que o Brasil é a sétima economia do planeta, ultrapassando inclusive economias tradicionais da Europa como a da Inglaterra e a da Itália. “O Brasil tem a agricultura mais competitiva do mundo. Temos uma fábrica de aviões de médio porte quase imbatível, que é a Embraer. Como é que só vamos ter repercussão negativa do Brasil? Nós temos coisas negativas, a violência é uma delas, mas eleger as deficiências como se fossem as únicas coisas que nós podemos encontrar no país é inaceitável. O Brasil já fez coisas muito mais difíceis que a Copa. Nós criamos uma civilização capaz de produzir cultura, economia, valores... Vamos nos atrapalhar com Copa? Não, não vamos.”

Ainda segundo o ministro, o País deve cumprir com suas responsabilidades e o que não deu para entregar até o evento, será entregue depois.

O legado

Essa política de acabar o que for vital apenas para que o evento aconteça e deixar o resto para depois, tão comum para o brasileiro, é que parece não estar mais agradando a população. Para o presidente do TCU, ministro Augusto Nardes, a falta de planejamento foi a principal causa dos atrasos das obras para a Copa do Mundo 2014. “O maior gargalo do País na execução das obras públicas é a falta de planejamento”, disse, durante audiência pública na Câmara dos Deputados.

Segundo levantamento apresentado por ele em relação às obras de mobilidade urbana, das 40 previstas inicialmente na matriz de responsabilidades, nove foram retiradas. E, das 31 obras restantes, apenas uma tinha sido concluída até então: a da Avenida Arrudas/Teresa Cristina, em Belo Horizonte, MG.

Das obras dos estádios, cinco foram entregues com atraso, entre eles a arena de São Paulo, o Itaquerão, com entrega no dia 15 de maio, e a arena de Curitiba, que só ficou pronta na última hora.

Aldo Rebelo justificou os atrasos dizendo que algumas dessas obras não eram obras para a Copa, mas do PAC. “O metrô de Fortaleza estava programado muito antes de se pensar em Copa do Mundo, o VLT de Cuiabá também, a alça de ligação da Jacu-Pêssego com a Radial Leste, de São Paulo, também não era obra para a Copa. Todas elas eram obras já programadas que os governos (federal, dos Estados e prefeituras) decidiram incluir em uma Matriz de Responsabilidades na tentativa de antecipa-las. Algumas foram antecipadas com êxito e outras não, mas continuarão sendo executadas e serão entregues para a população.”

Retorno favorável

Ainda segundo Aldo Rebelo, levantamento da Fundação Getúlio Vargas, encomendado pela Ernest Young, mostra que a Copa pode gerar até 3,6 milhões de empregos no Brasil. “Isso já seria o suficiente para transformar a Copa num grande benefício para o Brasil, no seu ciclo completo. Um acréscimo de 0.4% ao ano ao Produto Interno Bruto pelo menos até 2019.”

Outra pesquisa, realizada por meio da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) durante a Copa das Confederações, também deixa o Governo otimista. Isso porque o torneio, que é uma espécie de pré-copa, movimentou R$ 20,7 bilhões. A expectativa agora é de que a Copa do Mundo gere três vezes este valor, podendo chegar a R$ 30 bilhões. Se confirmada essa projeção, o valor acrescido ao PIB por conta do Mundial superaria os investimentos públicos previstos na Matriz de Responsabilidades.

O legado dos legados


Em artigo publicado na Época Negócios, José Roberto Ferro, presidente do Lean Institute Brasil, diz que a Copa do Mundo foi uma oportunidade perdida. Segundo ele, “poderíamos ter tido outro nível de gestão pública de planejamento e execução de obras”. No entanto, ainda segundo o autor, “o que parecia ser uma excepcional oportunidade de colocar o Brasil no mapa mundial dos países com capacidade de realização e organização, acabou tornando-se uma enorme frustração”.

Mas ele também diz que foi com a Copa que o brasileiro, ou pelo menos parte deles, despertou e foi às ruas questionar: “Será que estamos priorizando a coisa certa?”. E mais: “Por que pagamos tanto e recebemos tão pouco de volta?”.

E “se a Copa do Mundo reacendeu no brasileiro a capacidade de se indignar”, o grande legado que o evento deixa ao País talvez seja maior que qualquer obra de engenharia.

Talvez, além da taça e de uma consciência política maior, a Copa ainda deixe outra herança aos brasileiros: a lição de que sem planejamento não existe gestão eficiente, seja na esfera pública ou mesmo privada. Nenhuma solução imediatista ou populista resolverá os problemas mais sérios do País sem que haja uma verdadeira reforma na maneira de gerir os problemas da nação – mas planos concretos e de longo prazo, que sejam respeitados e cumpridos, independentemente de que partido político assuma o governo.

Até porque parece mais que evento algum seja capaz de continuar escondendo tantas mazelas.

 

 

Mapa do legado


Veja o que fica de principal para as 12 cidades-sede da Copa do Mundo FIFA de Futebol 2014 no que se refere às obras de mobilidade, a maioria ainda não concluída:

Belo Horizonte (MG)
Estádio Mineirão
BRT Antônio Carlos/Pedro I, precisa ainda ser finalizada, embora duas partes já tenham sido entregues
Aeroporto Internacional Tancredo Neves (Confins) – Uma das obras foi cancelada e trocada por um projeto menor, um terminal remoto

Brasília (DF)
Estádio Nacional Mané Garrincha
VLT linha 1 – trecho 1 (Aeroporto/Asa Sul) – Projeto foi retirado da Matriz de Responsabilidades e não ficou pronto para a Copa
Ampliação do Aeroporto Juscelino Kubitschek

Cuiabá (MS)
Arena Pantanal
Reforma e ampliação do Aeroporto Marechal Rondon
VLT Cuiabá/Várzea Grande – Não foi inaugurado para a Copa

Curitiba (PR)
Arena da Baixada
Ampliação do Aeroporto Afonso Pena
Ampliação e melhoria do Terminal
Santa Cândida

Fortaleza (CE)
Estádio Castelão
VLT Parangaba/Mucuripe – Não
ficou pronto
Estações de metrô Padre Cícero e Juscelino Kubitschek

Manaus (AM)
Arena da Amazônia
Monotrilho Norte/Centro - Obra não será mais executada para a Copa
Reforma e ampliação do Aeroporto Brigadeiro Eduardo Gomes
Natal (RN)
Arena das Dunas
Reestruturação da Av. Eng. Roberto Freire – Obra não ficou pronta para a Copa e já foi excluída da Matriz de Responsabilidades
Aeroporto São Gonçalo do Amarante

Porto Alegre (RS)
Estádio do Internacional Beira-Rio
Ampliação do Corredor Avenida Tronco – Só após a Copa
Aeroporto Salgado Filho – Terminal finalizado, mas obras de ampliação de pista deixou Matriz de Responsabilidades

Recife (PE)
Arena Pernambuco
Corredor Caxangá (Leste-Oeste)
Construção da nova torre do Aeroporto Gilberto Freyre

Rio de Janeiro (RJ)
Estádio do Maracanã
BRT Transcarioca (Aeroporto/
Penha/Barra)
Reforma do Aeroporto Antônio Carlos Jobim (Galeão)

Salvador (BA)
Arena Fonte Nova
Obras de Microacessibilidade (entorno)
Ampliação do Aeroporto Dep. Luís Eduardo Magalhães

São Paulo (SP)
Arena Corinthians
Ligação da Jacu-Pêssego com a Radial Leste – Ficará pronta apenas depois da Copa
Ampliação do Aeroporto de Guarulhos – Inaugurado Terminal 3
Monotrilho – Saiu da Matriz de Responsabilidades e só será entregue depois do evento

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