Revista Mercado Automotivo

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Revista Mercado Automotivo | Edição 236

MATÉRIA DE CAPA - Edição 236: Outubro DE 2014
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Por Cléa Martins

Com público de cerca de 400 profissionais, entre eles executivos, empresários e lideranças do aftermarket automotivo de várias regiões do País, o Seminário da Reposição Automotiva é consolidado como o maior evento realizado no Brasil voltado à discussão de assuntos que desafiam o mercado e à disseminação de ações que permeiem as boas práticas entre os formadores de opinião do setor.

O evento, promovido anualmente pelo GMA (Grupo da Manutenção Automotiva), formado pelas entidades Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores), Andap (Associação Nacional dos Distribuidores de Autopeças) e Sicap (Sindicato do Comércio Atacadista Importador, Exportador e Distribuidor de Peças, Rolamentos, Acessórios e Componentes para Indústria e para Veículos no Estado de São Paulo), Sincopeças--SP (Sindicato do Comércio Varejista de Peças e Acessórios para Veículos no Estado de São Paulo) e Sindirepa-SP (Sindicato da Indústria da Reparação de Veículos e Acessórios do Estado de São Paulo) e Sindirepa Nacional, aconteceu no dia 14 de outubro, no Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista, em São Paulo.

Nesta edição, Elias Mufarej, conselheiro do Sindipeças, que presidiu o Seminário, destacou a singularidade do evento durante a cerimonia de abertura: “Aqui são discutidos temas importantes e que são de grande auxílio para determinar seu negócio no futuro”, explicou. Também participaram da cerimônia Paulo Butori, presidente do Sindipeças-SP, Renato Giannini, presidente da Andap e do Sicap, Francisco de La Tôrre, presidente do Sincopeças-SP, e Antonio Fiola, presidente do Sindirepa-SP e do Sindirepa Nacional.

Entre os temas abordados, a tarefa de passar informações da economia global e seu impacto aqui no País foi do economista-chefe do Bradesco, Octávio de Barros. Sua palestra, sobre o tema “Para onde e como vamos? Sabemos bem onde estamos?”, apontou um cenário de poucas mudanças ou otimismo. Aliás, disse ele citando o escritor brasileiro Ariano Suassuna: “O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”. Assim, revelou um panorama de comércio mundial fraco e incapaz de criar oportunidades capazes de mudar o desempenho econômico do Brasil ou de qualquer outro país. Segundo ele, mesmo a China não tem conseguido manter índices de crescimento tão acentuados e tende a apresentar nos próximos anos um crescimento anual de 6%. Tal número até pode soar como paraíso para muitos brasileiros, já que, por aqui, a previsão é de algo em torno de 0,5% este ano e 1,5% no próximo. “O mundo vive uma penúria de investimentos. As coisas no Brasil devem começar a melhorar a partir do segundo semestre de 2015, já que, independentemente do governo que assumir a presidência, a partir do próximo ano precisaremos de um tempo para colocar a casa em ordem”.

Segundo o economista, o próximo ano tem tudo para ser mais ou menos uma cópia do ano de 2003. “No primeiro semestre teremos os ajustes e as reformas, daí, no segundo, é que começa a haver uma melhoria com a recuperação da confiança. E confiança é tudo no mercado econômico”, afirmou Barros que, em outras palavras, destacou também o fim da “belle époque” (expressão francesa que pode ser traduzida como época de ouro) econômica brasileira. Ela durou de 2004 a 2011 e foi impulsionada pelo consumo, antes represado, das classes sociais mais baixas que emergiram neste período. “Esse processo de crescimento é decrescente. Ainda devemos ter crescimentos neste sentido, mas não na mesma escala”.

Com mercados desanimados, a indústria automotiva nacional sofre. Deve fechar esse ano vendendo cerca de 10% menos automóveis e caminhões do que no ano anterior, que também já havia sido pior que 2012. Para 2015 a previsão é de estabilização, o que também não significa recuperação.

Como isso tudo tem impactado o mercado de reposição é o que tenta responder Stephan Keese, consultor da Roland Berger Strategy Consultants. A empresa, junto às principais entidades do setor, tem estudado a fundo o mercado de pós-venda e tenta criar uma base confiável de dados do aftermarket brasileiro. O trabalho, que deve contemplar dados como os de tamanho e evolução de mercado bem como estrutura de distribuição e outras tendências relevantes, começou em agosto deste ano e deve ser concluído até janeiro de 2015.

No entanto, no Seminário, Keese adiantou alguns dados. Inclusive o que aponta que um crescimento mais lento do PIB (Produto Interno Bruto) deve gerar novos desafios para o setor. “Depois de um 2014 difícil, esperamos que o mercado de veículos volte a crescer, mas em nível moderado até 2020. Com isso, a frota brasileira de veículos leves deve crescer em torno de 4% até lá, enquanto a de comerciais, menos de 1%”.

Em específico sobre o mercado de autopeças, os números disponíveis hoje são baseados apenas nos dados passados pelos associados do Sindipeças, que apontaram entre 2012 e 2013 uma quase estagnação do mercado. Além disso, o faturamento médio do aftermarket brasileiro está abaixo do de países como Alemanha, França e até mesmo China. Embora o comparativo ainda precise ser validado, já mostra que, por aqui, o ganho na reposição deste ano não passou dos R$ 320 por carro, enquanto na Alemanha, por exemplo, ele foi de quase R$ 2.300.

A boa notícia é que o mercado deve sim ter um crescimento impulsionado pelo aumento de frota e pelas novas regulamentações – tanto ambientais quando de segurança – para o segmento automotivo, assim como pela mudança de comportamento do consumidor, que deve ter um aumento de renda nos próximos anos. “Esperamos que o mercado de reposição atinja cerca de R$ 17 bilhões de faturamento até 2020, devido principalmente ao aumento da frota”, explicou Keese.

Para ele, outros fatores que devem influenciar também o setor são: o aumento do valor agregado das peças, a maior conscientização sobre manutenção preventiva, a redução da idade média da frota e a maior durabilidade dos veículos.

Sobre a estruturação da cadeia, o executivo disse que ainda precisa validar muitos dados, mas é evidente a importância do elo distribuidor para o canal, já que fica por conta dessas empresas a pulverização da grande parte de todos os componentes comercializados na rede independente.

Com uma parcela de quase 80% do mercado de reparação de veículos, o mercado independente precisa mais do que nunca focar na consolidação dos seus serviços e, principalmente, na profissionalização de seus profissionais, já que as concessionárias estão de olho na reposição e devem criar cada vez mais atrativos para manter o consumidor na rede – inclusive com programas de garantia estendida. “Há desafios espalhados por toda a cadeia de distribuição e eles precisam ser superados para que esse mercado continue crescendo. Entre esses problemas estão o desenvolvimento de estratégias mais claras de lançamento de produtos tecnológicos, com preços mais competitivos, a profissionalização e o desenvolvimento de cursos em escala para distribuidores e varejistas, a diminuição da complexidade fiscal, o aumento do nível da qualificação de reparadores e a conscientização do cliente final sobre manutenção preventiva”, explicou o consultor.

Mas, e o que pensa o cliente final, o dono do carro? Para responder a essa dúvida, Raul Camargo, diretor-geral do Gipa do Brasil, apresentou o resultado de pesquisa recente realizada pelo instituto com cerca de 4.000 proprietários de veículos com menos de cinco anos – média atual da frota brasileira. E, ao contrário do que muitos imaginam, quando perguntada sobre os critérios de escolha de um produto para manutenção do possante, a maioria das pessoas disse contar mais a confiança na marca do que o preço.

A confiança também é um dos elos de ligação entre o dono do carro e a oficina independente, embora a maioria das pessoas ainda evidencie o preço mais baixo em relação à concessionária como o principal fator de escolha. Enquanto que, nas concessionárias é a garantia que literalmente prende esses consumidores à rede.

Ainda segundo a pesquisa, a maioria das pessoas continua indo à oficina para fazer troca de óleo, com 38,9% dos casos. O reparo de um problema específico fica em segundo lugar, com 30%. Nos últimos 12 meses o Gipa calcula que mais de 102 milhões de visitas foram feitas às oficinas e centros automotivos no País com gasto médio de R$ 370, que aponta uma melhora no número de visitas em relação aos últimos anos. “O mercado de pós-venda está bom e deve continuar melhorando, pelo menos nos próximos cinco anos. Porém, para que o mercado independente possa desfrutar desse crescimento, necessita investir em equipamentos, no pessoal, na organização da oficina, enfim, reunir as condições que possam atrair os proprietários desses veículos”, afirmou.

Manutenção Preventiva

Embora já seja principal motivo pelo qual o dono do carro vai a uma oficina, no que se refere à troca de óleo, a manutenção preventiva tem muito ainda para crescer no País. Não é segredo para ninguém que não é hábito entre os brasileiros prevenir problemas. Assim, o mercado de reposição e reparação de veículos, que desfraldou essa bandeira junto à sociedade, através principalmente dos programas Carro 100%, Caminhão 100% e Moto 100%, coordenado pelo GMA, deve enveredar por caminhos digitais.

Edson Brasil, membro do GMA e conselheiro do Sindipeças, apresentou durante o evento a nova fase do programa que contará com um importante aliado: um APP gratuito que poderá auxiliar as pessoas a programar melhor a manutenção de seus veículos, além de obter informações sobre prestadores de serviços, entre outros dados. “Esperamos a adesão de um número expressivo de pessoas ao programa através desta ferramenta, que terá suporte em mídias sociais e mídia on-line”, explicou Brasil. Segundo ele, o APP já deve ser lançado entre o final deste ano e início do próximo.

Qualificação

Conscientizar o consumidor pode não ser a tarefa mais complicada das empesas do aftermarket automotivo para os próximos anos. Como foi evidenciado nos estudos iniciais da Roland Berger, a mão de obra qualificada já é um dos gargalos deste setor, que precisa ajudar a capacitar profissionais para atuar nos vários canais deste segmento, da venda à colocação das peças.

Luis Norberto, presidente da DPaschoal Automotiva e da DPK, que falou no Seminário sobre os desafios de encontrar mão de obra qualificada para atuar na reposição, contou que nos últimos anos treinou 44 mil pessoas e apenas 20% delas ainda estão com ele. “Não é fácil encontrar gente capacitada para trabalhar e esse desafio só tende a aumentar, assim como a tecnologia presente nos veículos. Na DPaschoal, por exemplo, temos pelo menos um carro por dia que exige conhecimento que não temos. A indústria precisa trazer esse conhecimento para a ponta e promover a capacitação desses profissionais que precisam de atualização a cada três meses pelo menos”, explicou Norberto, que mencionou ainda a necessidade de as empresas investirem em ferramentas e equipamentos: “Não basta ter só funcionário treinado”.

No painel sobre o tema, se uniram a Norberto Ranieri Leitão, presidente do Sincopeças Brasil e do Sistema Sincopeças/Assopeças no Ceará, o professor Ricardo Terra, do Senai, e Ali El Hage, do Sindipeças. Antonio Fiola mediou a discussão. “Se a indústria brasileira unir forças com a distribuição, podemos treinar e qualificar nossos profissionais, principalmente aqueles de regiões com menos acesso à informação, como os do Norte e Nordeste. O problema é que vivemos um faz de contas, no qual as fábricas fazem de conta que ensinam enquanto os profissionais fazem de conta que aprendem. Não dá para acreditar que não dá para aprender nada em uma palestra de 2-3 horas”, disse Ranieri, que deu exemplos de cursos realizados no Ceará e que podem ajudar a solucionar o problema no País. Um deles é o da Universidade de Gestão Corporativa – UGC –, projeto da entidade que visa à modernização das empresas do setor automotivo cearense, buscando a sustentabilidade do negócio a partir de uma atuação profissional e inovadora de seus gestores. O outro exemplo é do curso de técnico em manutenção automotiva nas Escolas Estaduais de Educação Profissional desenvolvido em parceria com o governo do Estado do Ceará e gerenciado pela entidade. “Acompanho a primeira turma de formados. Dos 73, 67 foram empregados pelo setor e hoje são os melhores profissionais em suas áreas nas empresas em que atuam. Queria que a realidade que estou vivenciando hoje no Ceará fosse levada para todo o País”, diz Ranieri.

Para Ali a educação deve ser uma preocupação da indústria como um todo, não é à toa que o Sindipeças tem levantado a bandeira das certificações, inclusive do IQA – Instituto da Qualidade Automotiva –, que, segundo ele, começou a moralizar o mercado nacional. A criação do Instituto Sindipeças de Educação Corporativa, iniciativa que visa compensar as falhas na formação educacional e minimizar a carência de profissionais de autopeças, também foi mencionada por ele: “Lamentavelmente tem muito empresário que ainda pensa que curso é despesa; temos que mudar essa cultura e pensar em como fazer alguns módulos voltados para o comércio. Afinal, sabemos que educação é um problema sério no Brasil e não adianta ficar esperando o governo”, comentou.

O professor do Senai mencionou que, embora o País tenha dado passos largos nos últimos anos, ainda precisa que muito seja feito. Para ele, o Pronatec – Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego –, promovido pelo governo federal, que começou errado, já que não levava em consideração as demandas do mercado de trabalho, foi revisto e hoje é uma ferramenta bastante útil na formação de jovens profissionais mais competentes.

Para Terra, o segredo da boa educação profissionalizante está na formação de parcerias público-privadas: “Não falta crédito e o financiamento da educação melhorou muito nos últimos anos. Acontece que nem sempre esses cursos são direcionados às necessidades do mercado. Ajudamos a formar advogados e importamos médicos de Cuba. Mas é preciso que o setor se organize para fazer as demandas”, explicou o professor, que lembrou os empresários e executivos de outro desafio: o de fazer com que o setor seja valorizado e bem quisto pelos jovens profissionais, pois só assim as salas de aula de cursos de mecânica voltarão a ficar cheias.

Para Fiola, que encerrou o debate, a tarefa do setor agora era sair de lá com o dever de transformar as propostas em realidade: “Usamos por muitas vezes desculpas que já não podem ser usadas, temos que sair daqui com o pensamento de cadeia produtiva, com um pensamento organizado. Vamos parar de ter iniciativas e, parafraseando um amigo, partirmos para a acabativa. Temos tudo na mão. E todos temos esse dever”, finalizou.

Para fechar o evento, o professor Nailor Marques, especialista em comunicação com o cliente, com foco em percepção da realidade, apresentou uma palestra bem humorada sobre como explorar as vantagens competitivas da empresa: “Chega de repetir essa bobagem de que você deve sair da sua zona de conforto. É nela que você é melhor no que faz. O que você precisa fazer é ampliá-la e o caminho para isso é aprender”, citou.

O Seminário deste ano contou com o patrocínio das empresas Affinia, Canal da Peça, Grupo Car, Cofap, Dayco, Delphi, DPK, KSPG Automotive, Mahle, NGK-NTK, Odapel, Pellegrino, Perfect Peças Automotivas, Grupo Comolatti e Grupo Scha?effler. Além disso, também teve o apoio da Bosch, da TRW e do IQA.

Além de colaborar para a realização do evento, os patrocinadores ainda doaram brindes para que fossem sorteados entre os profissionais presentes, como um míni iPad, doado pelo Canal da Peça, coolers, guarda-chuvas e até jantares no Terraço Itália, um dos mais tradicionais pontos turísticos de São Paulo.


- Internet -
Além dos 400 profissionais presentes no evento, muitos outros deles, em 36 cidades do País, assistiram ao Seminário deste ano. O evento foi transmitido ao vivo pela internet e acessado em mais de 528 computadores. Prova de que o setor está cada vez mais plugado.

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