Revista Mercado Automotivo

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Revista Mercado Automotivo | Edição 237

MATÉRIA DE CAPA - Edição 237: Novembro DE 2014
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Por Cléa Martins

Se nas décadas passadas tinha muito menino que não queria sair da oficina mecânica, tamanho o fascínio exercido pelo automóvel, hoje os jovens veem mais futuro nos cursos universitários. Com isso, empresas do aftermarket automotivo começam a sentir a falta não apenas de profissionais capacitados, mas de pessoas que realmente gostem desse mercado e optem por ele. “No Brasil há uma visão errônea de que só a universidade forma profissionais bem sucedidos, daí a queda de interesse dos jovens nos cursos profissionalizantes”, explica o professor Ricardo Terra, do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

Ainda no que diz respeito à imagem que o jovem tem sobre o setor, Terra afirma que, além de uma visão contaminada sobre os cursos técnicos, o setor ainda precisa enfrentar outro fantasma – o da falta de atratividade. “É preciso mostrar aos jovens que o perfil do mecânico mudou. Também na oficina ele terá que lidar com sistemas eletrônicos e entender muito mais de diagnóstico do que de mecânica e essa tecnologia é algo bastante atrativo”, explica.

Estudos da Roland Berger apontam que a falta de mão de obra qualificada já é um dos gargalos deste segmento, inclusive nos elos de distribuição e de varejo, o que exige das empresas que atuam neste mercado mais investimento em profissionalização.

Luis Norberto Pascoal, presidente da DPaschoal Automotiva e da DPK que, assim como o professor Terra e outros representantes do setor, participou da última edição do Seminário de Reposição Automotiva, sente essa carência de mão de obra qualificada há tempos. Para atuar, sua empresa capacita todos os anos cerca de 4 mil colaboradores: “A nossa estrutura de treinamento é baseada em escolas de formação. Temos cinco escolas – Gestão e Liderança, Vendas, Técnica, Administrativa e de Cursos Livres. Cada uma delas possui programas de treinamento e desenvolvimento específicos, direcionados para cada função ou mesmo para atender uma demanda organizacional”, afirma.

Os treinamentos do grupo são construídos por especialistas internos, denominados multiplicadores. Segundo Pascoal, para cada escola a empresa conta com um grupo de multiplicadores: “Contribuir com a formação do outro e se desenvolver ao mesmo tempo faz com que o colaborador sinta-se valorizado e reconhecido por suas experiências. Por outro lado, a empresa se beneficia das boas práticas que acontecem nos pontos de venda”, conta o executivo.

A grande variedade de peças que atendem uma frota cada vez maior de veículos está entre os problemas pontuais enfrentados diariamente nas lojas de autopeças e centros de distribuição. “Com tanta variedade de produtos no mercado, o estoque do distribuidor está cada vez mais diversificado, com maior número de itens, o que exige investimento por parte dos distribuidores em treinamento e sistemas para gerenciamento e controle de estoque. A atualização precisa ser constante e cada empresa tem a sua política de investimentos destinada à operação do negócio. De forma geral, até por conta da substituição tributária, que levou à abertura de filiais em várias regiões do País, essas empresas tiveram que aumentar o capital de giro consideravelmente nos últimos anos”, diz Renato Giannini, presidente do Sicap (Sindicato do Comércio Atacadista para Indústria e para Veículos em São Paulo) e da Andap (Associação Nacional dos Distribuidores de Autopeças).

Nas oficinas mecânicas o quadro não é diferente e se agrava ainda porque esses profissionais precisam ter conhecimento técnico não só dos componentes do carro, mas do funcionamento do próprio veículo ou sistema. “Há carência de mão de obra capacitada no setor de reparação, principalmente na área de colisão (funilaria e pintura) e também em eletrônica, devido à complexidade de recursos tecnológicos que equipam os veículos. O reparo no veículo se tornou altamente técnico. São sensores e uma série de recursos eletrônicos que revolucionaram a forma de reparar”, comenta Antonio Fiola, presidente do Sindirepa-SP (Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado de São Paulo) e Sindirepa Nacional.

Em busca de solução

Na tentativa de resolver o problema, o Sindirepa-SP, assim como as outras entidades do segmento, mantém estreito relacionamento com o Senai e com fabricantes de autopeças, mas isso não é suficiente para suprir a carência do setor, comenta Fiola: “É preciso estabelecer uma agenda e definir um amplo plano de atividades, envolvendo todos os elos da cadeia para realizar um projeto comum. Sem mão de obra capacitada, o setor de reparação não consegue se desenvolver para acompanhar a evolução do mercado. O problema na reparação é que não existe mais o jovem que aprende na prática na oficina. Por conta da legislação, os menores precisam participar de algum programa, isso acaba sendo oneroso para o dono da oficina”.

Segundo Elias Mufarej, coordenador do GMA (Grupo de Manutenção Automotiva) e conselheiro do Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores), os fabricantes, na medida do possível, promovem ações individuais junto a distribuidores, varejistas e oficinas. Além disso, a entidade conta com o Instituto Sindipeças de Educação Corporativa, formado por cinco escolas voltadas para manufatura, gestão de pessoas, gestão de mercado, gestão de negócios e sustentabilidade. Ainda segundo ele, através do GMA, as empresas têm tentado auxiliar as entidades a promover junto a seus associados uma consciência de união.

Francisco de La Tôrre, presidente do Sincopeças-SP (Sindicato do Comércio Varejista de Peças e Acessórios para Veículos no Estado de São Paulo), explica que a entidade trabalha na reestruturação de seu programa de educação continuada: “O objetivo do programa é ampliar significativamente a grade de treinamento e estender para todo o corpo de colaboradores e para os proprietários das empresas. Os Sincopeças de outros Estados também têm desenvolvido ações voltadas a treinamentos. Essa é uma pauta nacional e acredito que o setor como um todo deve se mobilizar para desenvolver um projeto mais abrangente sobre capacitação em todos os níveis e elos da cadeia, uma ação coordenada, assim como sugerido no painel apresentado no Seminário da Reposição Automotiva”.

Para José Arnaldo Laguna, presidente do Conarem (Conselho Nacional de Retíficas de Motores), a solução desse problema também passa pela união do setor: “Nossos associados contam com vários treinamentos realizados em parceria com fabricantes e a entidade. Desta forma, é possível aprimorar os serviços nas empresas e manter os profissionais atualizados com novas tecnologias. Claro que esse trabalho deve ser permanente e melhorado constantemente para atender a demanda das empresas”.

Segundo Laguna, se não existe mais glamour em se trabalhar com veículos e o jovem vê mais atratividade nas novas tecnologias, cabe ao setor mostrar ao mercado que essa tecnologia também está presente na reparação: “Promover a sucessão do comando e ainda formar profissionais com grande conhecimento em eletrônica é um dos grandes desafios do setor, pois cada dia mais os veículos necessitam de equipamentos de última geração para diagnosticar as falhas e os defeitos em sensores e componentes”.

Cases

Na última edição do Seminário, alguns participantes apontaram exemplos que podem ajudar a nortear o trabalho de entidades, governos e empresas na tarefa de capacitar pessoas para esse segmento, que até 2020 deve atingir um faturamento de R$ 17 bilhões, devido principalmente ao aumento da frota.

Do Ceará, Ranieri Leitão, presidente do Sincopeças Brasil e do Sistema Sincopeças/Assopeças daquele Estado, trouxe dois cases. Um deles é o da Universidade de Gestão Corporativa – UGC –, projeto da entidade que visa à modernização das empresas do setor automotivo cearense, buscando a sustentabilidade do negócio a partir de uma atuação profissional e inovadora de seus gestores. O outro exemplo é do curso de técnico em manutenção automotiva nas Escolas Estaduais de Educação Profissional desenvolvido em parceria com o governo do Estado do Ceará e gerenciado pela entidade. “Se a indústria brasileira unir forças com a distribuição, podemos treinar e qualificar nossos profissionais, principalmente aqueles de regiões com menos acesso à informação, como os do Norte e Nordeste”, disse Ranieri no evento.

Outro exemplo que deu certo foi a parceria entre Hyundai e Senai. Antes de inaugurar sede em Piracicaba, interior de São Paulo, a montadora sul-coreana fez um acordo com a instituição de ensino técnico que ajudou a capacitar todos os 2.000 profissionais que atuam hoje no local.

Pronatec

Apontado como um avanço na formação técnica do País, o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), promovido pelo governo federal, pode ajudar a atender o setor. Por meio da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e do Senai (Serviço Nacional da Indústria), o Sindirepa tem aprofundado o tema e até participado de ações, como o do Projeto AfroReggae, que ajuda na inclusão de egressos do sistema prisional ao mercado de trabalho. A verba do programa é do Pronatec e o Sindicato paulista receberá um prêmio da Fiesp por ter participado da ação.

Também por meio da Fiesp, o Sindirepa-SP já ajuda a promover cursos dentro do Pronatec que estimulam a formação de jovens nas áreas de informática, operação de loja e varejo, serviços administrativos e alimentação. O programa Jovem Aprendiz contempla estudantes de 15 a 24 anos, com prioridade para os alunos da rede pública de educação. “Esse trabalho tem como objetivo atender as demandas de mão de obra qualificada do setor de reparação e hoje é capaz de oferecer mais de 400 alunos para contratação, em diversas cidades de São Paulo. Eles estão cursando entre 1º e 4º semestres. A iniciativa vem ao encontro das necessidades da indústria da reparação com relação à escassez de mão de obra especializada”, explica Fiola.

Ainda segundo ele, as empresas que aderirem ao programa pagam um salário mínimo ao jovem contratado, que terá uma carga de trabalho que varia de quatro a seis horas diárias. Além disso, o empresário precisa contribuir com 2% para o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), ante 8% cobrado normalmente. Não há indenização por rescisão do contrato de trabalho. E, ao final do programa, o aluno recebe uma certificação técnica e poderá ser efetivado na empresa.

Para contratar um jovem, que pode trabalhar por até dois anos no mesmo lugar, a empresa precisa ter pelo menos um funcionário e se inscrever no portal Mais Emprego, do Ministério do Trabalho, que fará o gerenciamento da vaga.

Cenário

Até o final de 2012, dado mais atual, entre indústria, distribuição, varejo e oficinas somavam-se 998,5 mil empregos. Com relação ao número de vagas pendentes por falta de profissionais capacitados não há números, assim como não existe um levantamento oficial do setor sobre investimentos feitos na capacitação de pessoas. Nas oficinas, o Sindirepa estima que o valor investido em treinamento de funcionários corresponda a 2% do faturamento. Por isso, a contribuição da indústria é fundamental.

Não bastasse o desafio de atrair e treinar seus profissionais, o segmento ainda precisa trabalhar muito para mantê-los. Mas aí já é outro assunto. Haja trabalho!

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