Edição 163 - Matéria de Capa
 
O Perfil da Distribuição
Sobreviver e se destacar no concorrido mercado brasileiro de reposição de autopeças não é uma tarefa fácil. Problemas fiscais, tributários e de geração de capital continuam a perturbar distribuidores que estão otimistas.
 
Edição: Cléa Martins
 
   
   

Atualmente cerca de 240 distribuidores de autopeças atuam no País. É por meio dos seus mais de 400 centros de distribuição que os componentes automotivos fabricados no Brasil e até em outros países chegam aos mais de cinco mil municípios brasileiros e também em algumas cidades do exterior. A agilidade dessas empresas é tanta que a maioria delas podem garantir a entrega de um item, mesmo para os clientes mais distantes, em menos de 24 horas.
Números como os do faturamento anual, que ultrapassa os R$ 10,5 bilhões, e da capacidade empregatícia, hoje de cerca de 40 mil postos, dão uma melhor dimensão da importância desse segmento. “Não consigo enxergar uma reposição eficiente sem a participação da distribuição no sistema. O Brasil tem dimensões continentais e vários tipos de varejo e de oficinas. Não fosse a disponibilidade e a logística dos distribuidores, provavelmente haveria regiões no País com muitos veículos parados por falta de peças”, afirma Frederico dos Ramos, presidente da Andap – Associação Nacional dos Distribuidores de Autopeças – e da Ginjo Auto Peças.
Apesar de pertencerem ao mesmo elo de mercado, não significa que essas empresas sejam todas iguais. Muito pelo contrário. Além de ser formado por diferentes tamanhos de empresas – pequenas, médias e grandes –, o elo distribuidor ainda tem companhias que atuam das maneiras mais diversas. Alguns optam por fornecer produtos apenas para determinadas linhas de veículos (segmentados), já outros preferem estender ao máximo seu portfólio e, assim, conquistar mais clientes (generalistas ou diversificados). “A maioria dos distribuidores ainda opta pela diversificação. Acredito que apenas 20%-30% das empresas caminhe para a especialização”, afirma Luiz Carlos Vieira, diretor executivo da Andap.
Outra característica bastante marcante do setor é a experiência. A maioria dessas empresas já passou dos 30 anos e boa parte delas nasceu antes mesmo das montadoras de carros e grandes fabricantes de peças terem se instalado no País.

Fora de foco
Apesar de toda força e experiência, essas empresas também sofrem com problemas estruturais, conjunturais e mercadológicos. A falta de crédito é um deles, mas que poderia ser resolvido com um bom programa político de incentivo à produção e comércio e com a maior ajuda dos fabricantes de autopeças no financiamento dos produtos: “Com iniciativas como essas poderíamos aumentar o fluxo financeiro para toda a cadeia”, diz Ramos.
Outro problema que atormenta os distribuidores brasileiros é a legislação tributária, que coloca os empresários no alvo da guerra fiscal entre os Estados. “São tantas as variáveis e diferenças entre os Estados da federação que somos obrigados a conviver com situações bastante difíceis. Uma delas é a de implantação de sistemas sofisticados para o devido acompanhamento e cumprimento das leis fiscais.
A outra é a competitividade desleal, propiciada justamente porque a atual legislação dá margem à sonegação”, declara Ramos.
O excesso de participantes em todos os elos da cadeia de distribuição também enfraquece economicamente o setor e pode causar, no futuro, um enxugamento na quantidade de empresas desse mercado, diz Ramos. Tudo isso sem contar a entrada de autopeças “importadas” no mercado, o que também ajudou a dificultar a vida dos distribuidores nacionais.

Otimismo
Mesmo diante de tantos desafios, o presidente da Andap se diz otimista e espera que 2008 seja melhor do que o ano anterior. “Os recordes de vendas de veículos novos farão com que o mercado de reposição também seja beneficiado economicamente, basta que o período de garantia desses carros vença e eles deixem as concessionárias”, explica Ramos, que ainda acredita que o custeio das campanhas eleitorais deste ano possa fazer circular mais dinheiro no mercado, o que também contribui para a melhoria da economia.

A melhorar
No entanto, alerta o presidente da Andap, o fortalecimento do mercado independente e do próprio distribuidor, seja neste ou nos próximos anos, depende primeiro da qualificação do setor de reparação automotiva: “Não tenho dúvidas de que se o mercado reparador for eficiente teremos cada vez mais sucesso. Por isso, as fábricas, os distribuidores e o varejo não devem poupar esforços para ajudar a qualificar e equipar cada vez mais o elo da cadeia que mais tem contato com o cliente final”.
Outra medida que ajudaria a melhorar os negócios na reposição, acredita Ramos, é a criação de financiamentos que permitam ao dono de carro financiar a compra de peças e o conserto do seu veículo: “Nosso setor não tem financiamento para os consumidores e, por isso, deixa que outros segmentos, como os de eletroeletrônicos, celulares e materiais de construção, que já há algum tempo oferecem esse recurso, sejam preferidos pelos consumidores”, explica o presidente da Andap.
Ainda segundo Ramos, o respeito pela cadeia do aftermarket automotivo é essencial para o bom funcionamento do setor de reposição independente. No entanto, ele admite não existir medidas comuns que possam garantir que a corrente não seja quebrada: “Qualquer norma mais rígida fica bastante comprometida diante dos interesses comerciais de cada um. Acreditamos que o mercado por si só irá se encarregar de estabelecer quem vai vender para quem”. Falando em melhorias, a relação dos distribuidores com seus fornecedores, que parece andar bem, só precisa mesmo de um ajuste nas áreas de atendimento e garantia, afirma o presidente da Andap: “Infelizmente, por motivo de redução de custos, muitas fábricas cortaram demasiadamente o pessoal da assistência técnica. Por vezes as respostas em torno de garantias e de laudos técnicos deixam muito a desejar”. Já o relacionamento com o varejo, afirma Ramos, precisa ser mais produtivo. “O distribuidor precisa oferecer ao varejista o maior número possível de referências para que ele tome a melhor decisão ao fechar um negócio. Além disso, cabe ao distribuidor não destruir esse relacionamento ao adquirir peças sem procedência só porque os preços são 20% menores do que os oferecidos pelos fornecedores tradicionais”, conclui dos Ramos.

Raio X do mercado de distribuição brasileiro
- No País são cerca de 240 distribuidores de autopeças
- São 500 centros de distribuição
- Faturamento anual ultrapassa os R$ 10,5 bilhões
- Responsável por 40 mil postos de trabalho
- Empresas heterogêneas e tradicionais – a maioria delas está há mais de 30 anos no mercado

Outros pontos de vista
“Quando falamos de reposição automotiva não enxergamos apenas a indústria de autopeças, mas a cadeia produtiva formada também pelos distribuidores, varejistas e reparadores de veículos. Juntos, esses elos abastecem de peças e serviços todo o Brasil, com suas dimensões continentais, e mantêm a maior parte da frota circulante de veículos automotores. A reposição automotiva não é somente uma questão de mercado. É um instrumento estratégico para o País, pois torna possível o transporte rodoviário de suas riquezas.”
Paulo Butori, presidente do Sindipeças
– Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores.

“Os distribuidores de autopeças têm papel fundamental no processo de suprir o mercado de reposição em todas as regiões do Brasil. As empresas que atuam nesse segmento têm knowhow para identificar as diferentes necessidades de cada mercado e atender a todos de forma ágil. Além disso, o setor de distribuição de autopeças possui tradição e é formado por empresas sólidas que investem em tecnologia e logística para que as peças dos mais variados modelos de veículos estejam à disposição em qualquer região do País. Em relação a relacionamento, a maior comprovação de que o setor da reposição automotiva trabalha em parceria são as ações do GMA − Grupo de Manutenção Automotiva − que, desde 1995, se tornou um fórum importante de discussão para a realização de atividades que contribuem para a evolução do setor.”
Antonio Fiola

 
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