Edição 176 - Matéria de Capa
 
A Dança dos Números
Definir métodos é a melhor maneira para diagnosticar, com precisão,a saúde financeira da sua empresa
 
Texto: Christiane Benassi

Lidar com números é muito mais complicado do que se imagina. No mundo dos negócios, pequenos lapsos podem provocar estragos de dimensões incalculáveis. É muito provável que os resultados de crescimento da empresa, por exemplo, sejam virtuais, ou seja, bem distantes da realidade e os administradores nem tenham percebido que o barco, ao invés de seguir em frente, permanece estacionado, ou pior, está prestes a afundar. Como isso é possível? Muitos empresários calculam somente o faturamento nominal dos negócios, isto é, a diferença dos valores das vendas de um determinado período e a comparam com a do anterior. Porém, esquecem que alguns fatores interferem no resultado final da empresa. Ao deixar de deflacionar o faturamento, pela variação de preços praticados pelo fornecedor ou outro índice que meça a inflação no segmento, o empresário deixa de ter o crescimento real dos negócios e corre o risco de sofrer uma megarrasteira, ao ser surpreendido pelo débito nas transações correntes.

Ciranda numérica
Para verificar o desempenho da empresa não há segredos, porém a falta de critérios, organização e até mesmo de informação de alguns empresários dificulta a divulgação de índices confiáveis. Diante da falta de uma metodologia adequada, nem sempre é possível medir o crescimento ou não de uma empresa. A elaboração de um balanço de pagamentos completo permite ao administrador conhecer melhor o funcionamento da empresa, o comportamento de clientes, estipular, com segurança, metas e desenvolver argumentos para negociar melhor com fornecedores, pois essa espécie de “relatório financeiro” revela claramente onde se está ganhando ou perdendo em uma determinada negociação.
Conhecer os métodos de diagnóstico utilizados na própria empresa não é a única obrigação do empresário. Os índices, que revelam o desempenho do mercado, também são importantes indicadores para a verificação da saúde financeira de um determinado negócio, já que facilitam proprietários e, sobretudo, investidores a medir riscos.

Pecados Capitais
Não restam dúvidas de que o grande erro do empresário é deixar de deflacionar o faturamento, pois ele terá acesso somente ao chamado crescimento nominal, ou seja, o quanto ele vendeu a mais ou a menos em relação a um período anterior, mas não terá condições de conhecer o quanto ganhou ou perdeu, já que a variação de preços interfere não só no valor de vendas, mas principalmente no de compras e, por isso, se não eliminada do faturamento acumulado do período, o empresário jamais terá a ideia real do desempenho da empresa.
Ao deixar de usar um índice deflator, que necessariamente espelhe as oscilações de preço praticadas no mercado, o administrador da empresa cai na armadilha dos números, pois acredita que o faturamento em um determinado período foi maior ou permaneceu estável em relação ao período anterior, porém esquece-se de que houve variação dos custos. Conforme indica a tabela (dados hipotéticos), apesar de a empresa ter registrado um crescimento de 10% nas vendas no Período II em relação ao Período I, o lucro bruto da empresa foi apenas de 3,7%:

Efeito Polêmico
Há ainda empresários que adotam um procedimento bastante questionável para avaliar seus negócios. A média da variação do real em relação ao dólar, em um determinado período, é usada como indexador. Os preços praticados pela maioria das indústrias estão ligados à flutuação do câmbio porque grande parte da matéria-prima é cotada em dólar. Ao converter em dólar os valores da venda de cada período, o empresário automaticamente elimina os efeitos da inflação e pode comparar os resultados com outros períodos para conhecer o crescimento ou não da empresa.

Casa em Ordem
Antes de discutir os melhores procedimentos de marketing capazes de promover o crescimento dos negócios, é necessário que o administrador eleja um método adequado para organizar financeiramente e acompanhar com segurança a evolução da empresa.
Para verificar o desempenho das vendas no comparativo de dois ou mais meses, a utilização de um índice que elimine os efeitos da inflação no seu negócio já é suficiente. Porém, os bons resultados nas vendas e a garantia de lucro promovem o crescimento dos negócios.
O administrador precisa ser um bom jogador de xadrez para fechar o balanço de pagamentos com saldo positivo.
*Para aqueles que elegeram a dolarização como método de avaliação dos negócios, o valor é substituído pela variação do dólar no período analisado. Portanto, é a partir do lucro líquido, ou seja, a relação entre o lucro bruto, despesas e lucro líquido, que o empresário tem condições de verificar o desempenho da empresa em um determinado período. Porém, somente a comparação entre dois períodos é que revela ao administrador o crescimento e a saúde financeira dos negócios.

Salada Numérica
No varejo de autopeças ainda prevalece o método intuitivo para a medição do crescimento. Fruto de uma tradição familiar no gerenciamento dessas empresas, em que a concorrência e a preocupação com o registro dos dados financeiros da loja eram mínimos, o acompanhamento do fluxo de caixa, ou seja, o quanto entra e saí no mês ou semana. O acompanhamento do fluxo de caixa oferece ao administrador um resultado virtual dos negócios da empresa, ou seja, ele acredita que está crescendo ou estável, enquanto o capital é corroído pela variação de preços praticados pelos fornecedores ou nos custos fixos. Logo, conhecer realmente a empresa permite ao empresário planejar o futuro e investir na expansão dos negócios.

Mesma Língua
A falta de um índice capaz de medir a variação de preços no mercado independente, principalmente para o varejo, gera uma série de incoerências, visto que cada administrador adota um deflator. Embora índices como o IPC e o dólar permitem ao empresário verificar o crescimento real, não espelham a variação dos preços praticados no mercado.
Diferentemente do IPC, que mede a variação de preços para o consumidor de uma série de produtos, a coluna 16 da FGV divulga a inflação dos componentes automotivos, que certamente, são repassados para os últimos elos da cadeia de distribuição.

 
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