Edição 178 - Matéria de Capa
 
Depois da Tempestade
Passados os dias de crise, as coisas parecem voltar ao seu devido lugar. Setores já falam em reaver perspectivas
 
Texto: Marina Diana
   
 
Depois da Tempestade
  Imagem: Elvis P. Santos / Fotolia.com
   
 
Tharcisio Souza Santos
  Tharcisio Souza Santos, professor da Faap, o apelo emocional das campanhas interfere no aumento na venda de veículos
   

Não foi um período fácil. Desde que o mercado financeiro norte-americano ruiu, falências, ruínas e deflação estiveram na pauta dos principais meios de comunicação do País e também dos encontros empresariais. No entanto, a situação parece estar se invertendo e já se fala em retomada da produção, inclusive nas montadoras.

Um dos efeitos nocivos da crise, que parece já ter sido controlado pelo governo brasileiro e por empresas aqui instaladas é a deflação. Oposto de inflação, deflação significa a queda do nível geral dos preços, a baixa de valor de bens e serviços. Não se deve confundir deflação com desinflação, que é a redução do ritmo de alta de preços num processo inflacionário.

Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que esse fenômeno tem como principal característica o fato de os preços dos produtos ficarem mais baixos o que, diferentemente do que se pensa num primeiro momento, não é interessante nem ao consumidor nem à economia.
“É um circulo vicioso: o desemprego cresce, as pessoas não compram porque não têm dinheiro e a economia não movimenta, gerando mais desemprego”, afirma Tharcisio Souza Santos, diretor do MBA Executivo da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

O economista e também conselheiro do Conselho Regional de Economia 2ª Região- São Paulo (Corecon-2), Carlos Eduardo Oliveira, concorda, e completa: “Esse fenômeno é ruim porque a capacidade de produção se torna ociosa, o produtor não tem o que fazer e para desovar a mercadoria produzida abaixa os preços. Assim, o produtor passa a vender por um preço inferior ao valor de mercado”, sublinha.

Quando o fenômeno se repete por dois trimestres seguidos é desencadeado o processo da recessão, que é um período em que ocorre um grande declínio na taxa de crescimento econômico de uma determinada região ou país. Resulta na diminuição da produção e do trabalho, dos salários e dos benefícios das empresas. “Por isso que o governo brasileiro precisa aquecer a economia, para estancar essa sangria com essas políticas econômicas, como redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados)”, exemplifica Souza Santos.

Ele conta que, depois do crash da Bolsa nos Estados Unidos em 1933, o produto bruto do país já era metade do que o contabilizado quatro anos antes, em 1929, com 14 milhões de desempregados. “Mas, atualmente, durante os momentos de crise, os governos adotaram modelos anticíclicos ‘keynesianos’ [organização político-econômica oposta às concepções neoliberalistas, fundamentada na afirmação do Estado como agente indispensável de controle da economia, com objetivo de conduzir a um sistema de pleno emprego]. Ou seja, o governo reduz os impostos para superar o momento de deflação e assim reativar a economia”, afirma o professor da Faap.

Momento brasileiro
O cenário que começa a se delinear para a inflação no próximo ano é altamente benigno para o consumidor. É o que deve acontecer dada às quedas consecutivas dos preços do Índice Geral de Preços ao Mercado (IGP-M), indicador usado para reajustes de uma série de contratos, em especial de aluguéis. No fim do mês passado, por exemplo, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) anunciou que em junho o IGP-M fechou mostrando uma deflação de 0,10% depois de já ter caído 0,07% em maio e 0,15% em abril. E para julho a expectativa é de que o IGP-M possa fechar com mais uma queda de cerca de 0,05%. Essa sucessão de taxas negativas de inflação deverá levar para o próximo ano um componente de baixa de preços que em muito ajudará o consumidor, que poderá desembolsar menos recursos para o pagamento de contas de luz, água, telefone, aluguel e mensalidades escolares.

Nos 12 meses deste ano, o IGP-M acumula inflação de 1,52% em junho e também caminha para uma taxa mais próxima de zero. Nos 12 meses, a última deflação nessa base ocorreu em abril e maio de 2006, quando a taxa ficou negativa em 0,92% e 0,33%, respectivamente. Naquela época, a moeda americana registrou uma desvalorização de 20% em 12 meses.

Para Tharcisio Souza Santos, o momento mais crítico da oscilação financeira mundial no Brasil foi entre novembro e dezembro do ano passado, antes de o governo tomar as medidas para conter a crise, como financiamentos para montadoras de veículos. “No Brasil, a crise, em um primeiro momento, cortou a linha de crédito internacional e reduziu a exportação. Isso afeta diretamente o emprego e a capacidade de compra no mercado interno. As grandes empresas que tinham recursos internacionais passaram a utilizar o crédito interno que antes era destinado às pequena e média empresas, acentuando a deflação”, ressalta Souza Santos. No entendimento dele, o governo tem sido “impecável” para conter a crise. “Eles fizeram tudo direitinho. De um modo geral, as medidas tomadas pelo governo são boas. Após a crise, vamos estar melhores do que antes dela”, aposta o professor, que profetiza: “Nós passamos um momento difícil, mas muito menos do que o resto do mundo”.

Apesar das vulnerabilidades atuais, o especialista do Corecon-2, Carlos Eduardo Oliveira, consegue enxergar um bom momento no país, se comparado com o Plano Collor [conjunto de reformas econômicas e planos para estabilização da inflação criados durante a presidência de Fernando Collor de Mello entre 1990 e 1992], quando o dinheiro ficou congelado e as compras, inertes. “Aquela época foi a mais crítica. No que se refere à crise atual, nossa economia é baseada em empréstimos e financiamentos. Mas isso ainda está devagar, o que gera uma redução no consumo, diminui a capacidade de comprar e de pagar do cidadão”, explica o especialista. O fenômeno, no entanto, não tem sido exclusivo do Brasil.

Em junho deste ano, os preços ao consumidor na zona do euro ficaram negativos pela primeira vez, em 0,1 por cento em junho sobre igual período no mês de maio. O dado informado pela agência de estatísticas da União Europeia, a Eurostat, segue a leitura estável dos preços do mês anterior na comparação anual e é a primeira queda anual desde a criação da zona do euro em 1999. Os preços caíram, sobretudo entre energia e alimentos, e, na medida em que a crise econômica diminui, aumenta o espaço para repasses por parte das empresas.

Montadoras
A indústria automotiva, que projetava queda de quase 4% nas vendas de veículos em 2009 em comparação a 2008, reviu suas expectativas em junho passado e já fala em novo recorde, com resultados superiores aos 2,82 milhões de veículos vendidos no ano passado. A revisão foi anunciada após o anúncio do governo federal de prorrogar o corte do IPI. “Com a queda do volume de vendas, o governo fez a redução do IPI. Assim, como a compra do automóvel está diretamente ligada ao apelo emocional, logo o mercado melhorou e já está num patamar muito bom”, analisou o professor da Faap, Tharcisio Souza Santos. “Mas a exportação não vai tão bem”, pondera, e exemplifica: “No setor de caminhões ninguém compra um veículo zero quilômetro por apelo emocional. Portanto, se o frete está em queda, não haverá venda de caminhão”. No entendimento de Carlos Eduardo de Oliveira, a redução do IPI, num primeiro momento, era uma forma de “desovar estoques até que a economia se aquecesse novamente”. “O ano de 2008 foi o melhor para o setor automobilístico. O governo tem um papel fundamental de reaquecer a economia”, disse.

Muito das oscilações do mercado e o fenômeno da deflação deu-se em função dos problemas financeiros envolvendo empresas como Chrysler e General Motors. A primeira teve sua quebra declarada em abril passado quando, da mesma forma que no caso da GM, um grupo de credores se negou a reestruturar a dívida da empresa. A montadora, terceira maior dos Estados Unidos após GM e Ford, conseguiu sair da quebra em 1º de junho depois que o juiz Arthur González, também do Tribunal de Falências de Nova York, aprovou a venda de seus ativos à Fiat e a criação do novo Grupo Chrysler.

A GM, empresa cuja expressividade no Brasil é grande, não sentiu muito a crise mundial, nem os efeitos da deflação. É o que afirmam os especialistas ouvidos por Mercado Automotivo. “A GM no Brasil está boa. Teve apenas uma pequena redução no marketing share, mas nada muito dramático. O automóvel produzido no Brasil tem qualidade”, elogia Tharcisio Souza Santos. O economista do Conselho Regional de Economia 2ª Região, completa: “A GM no Brasil caminha bem. Historicamente ela é muito forte no Brasil. E a quebra da GM nos Estados Unidos não afetou a fábrica por aqui. Pode gerar uma insegurança e os consumidores acharem que, por conta da quebra da multinacional, o veículo será desvalorizado no mercado brasileiro, mas não acredito que aconteça esse impacto. De um modo geral, a GM e as outras montadoras estão bem”, acredita.

 
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