Edição 180 - Artigo
 
Nas mãos do Mané
 
Texto: Luciano Pires
 
  Luciano Pires
  Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Faça parte do Movimento pela Despocotização do Brasil.
www.lucianopires.com.br luciano@lucianopires.com.br

Segunda metade dos anos 70, festinha com a turma da faculdade na casa do Waltinho. Com os pais dele viajando. O pai do Waltinho tinha uma adega particular com vinhos de primeira, que decidimos experimentar.

Abrimos a primeira garrafa. Faz tempo demais pra eu lembrar a marca, mas era um tinto italiano maravilhoso. A molecada surtou. Tomar aquele vinho era pra nós – duros – um evento! Que sabor. Que elegância. Nos sentimos os tais e mandamos ver, enquanto fazíamos uma rodinha de som, cantando e bebendo. Foi-se a primeira garrafa. E a segunda. Que vinho! E assim continuamos. Pelas minhas contas, já tínhamos desfalcado a adega do pai do Waltinho em sete garrafas... Como é que ele ia explicar?

O Waltinho dizia “não se preocupem”, enquanto o Mané trazia outra garrafa. O Mané era uma figura, um japonês chamado Manoel. Era ele quem trazia da cozinha o vinho que tanto nos agradava.

E então eu reparei...
A garrafa vazia nunca ficava na sala. O Mané pegava a bichinha e ia pra cozinha, de onde voltava com outra garrafa cheia... e aberta. Não falei nada pra ninguém, só segui o picareta até a cozinha pra vê-lo entornando um garrafão de “Sangue de Boi” dentro da garrafa de vinho italiano. Só a primeira rodada foi do italiano de verdade.

Dali em diante, só “Sangue de Boi”, que os “experientes” garotos de 20 anos achavam o máximo...
– Mané, como você é sacana!
E o Mané, sorrindo:
– Vem me ajudar.
Entrei no jogo e também comecei a servir o vinho “italiano”. Mas não servia apenas. Puxava assunto...
– E aí, tá bom?
– Excelente!
– Sentiu o buquê?
– Ah, isto é uva de primeira. Também, né? Italiano...
E assim foi. Todo mundo tomando “Sangue de Boi” e desbundando com a qualidade fantástica do “italiano”.
Lembrei dessa história anos depois, ao viver uma experiência com vinhos junto à turma de meu filho, que tinha seus 20 anos. Os moleques tomavam um vinho de oito reais...
– Ninguém tem grana pra comprar melhor, pai. Vai esse mesmo.
Abri então um vinho de primeira. Um gaúcho daqueles de tomar de joelhos. E servi pra molecada.
– Que tal, moçada?
– Hummmm... Excelente, tio. Muito bom mesmo.
– Tá vendo? Isso é que é vinho, não essa porcaria que vocês tomam!
– É verdade, tio. Mas vamos continuar com nosso vinhozinho de oito reais. Não queremos qualidade.
Queremos quantidade...
Pois é... Saber gostar de vinho é uma questão cultural.
Entender de onde vem e como é feito, saber das combinações das uvas, muda nossa percepção. O conhecimento faz com que tomemos vinho com os cinco sentidos. E então o milagre acontece: passamos a apreciar a qualidade mais que a quantidade. E o mais importante: aprendemos a encontrar joias mesmo entre os vinhos baratos!
O mesmo acontece com música. Com literatura. Com cinema. Com artes plásticas. Com poesia. Com...
Se daquilo que consome você só conhece o preço, vai ficar nas mãos dos manés.

 
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