Poucos se dedicam tanto à reposição quanto Sérgio Alvarenga. Há mais de vinte anos luta pelo fortalecimento do setor. Hoje, o diretor do Sindirepa-SP, assessor do GMA e coordenador do grupo de reposição do Sindipeças, é respeitado por todos os elos da cadeia de distribuição.
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Sérgio Alvarenga |
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Nessa entrevista exclusiva à Mercado Automotivo, Sérgio fala abertamente sobre o mercado de reposição, dos desafios de defender os interesses do setor junto aos órgãos governamentais, da busca pela preferência do consumidor e dos planos para os próximos anos.
Mercado Automotivo – Poucos profissionais têm um envolvimento tão grande com a reposição quanto você. Conte um pouco da sua trajetória nesse mercado.
Sérgio Alvarenga – O meu envolvimento no setor começou em 1987 quando atuei junto ao então presidente do Contran - Conselho Nacional de Trânsito, engenheiro Roberto Scaringella, e em seguida fiz uma breve passagem pela Fenabrave. Em 1989 ingressei no Sindirepa-SP a convite do então presidente Geraldo
Luiz Santo Mauro como funcionário na condição de assistente, ficando até o ano de 2000, quando abri minha empresa de consultoria, e fui contratado pelo sindicato para execução de projetos especiais até a presente gestão do então presidente Antonio Fiola.
Aqui vale um destaque especial, pois o sr. Geraldo Luiz Santo Mauro, profissional de visão e arrojado para o seu tempo, possibilitou a liberdade de inovar. As portas foram abertas pelo mesmo com grande esforço conquistado em tempos atrás. Já em um momento mais contemporâneo, a gestão do atual presidente Fiola deu o dinamismo e juventude necessários para continuar inovando e quebrando paradigmas que se formam naturalmente ao longo dos anos, pautados sempre pela lealdade ao setor.
Como venho acompanhando há muitos anos o setor de reposição automotiva, percebo que há excelentes profissionais empenhados em dar o melhor de si. Isso faz com que o setor se profissionalize e esteja cada vez mais maduro. Só o fato de termos o GMA - Grupo de Manutenção Automotiva, onde as entidades dos fabricantes, distribuidores, varejo e oficinas discutem ameaças e oportunidades de toda a cadeia, já é uma vitória muito grande. Todos os elos da cadeia falam a mesma língua e buscam sempre melhorar o atendimento ao consumidor, que é o objetivo final de todo esse processo. O setor da reposição automotiva é extremamente competente, prova disto que é responsável por cuidar de 80% da frota circulante estimada em 27,8 milhões de veículos. Para isso, é necessário que as empresas invistam constantemente em logística, tecnologia e capacitação profissional.
Mercado Automotivo – Tanto tempo de atuação fez com que você conhecesse muito bem o setor. Qual é, na sua opinião, o atual cenário da reposição independente?
Alvarenga – O cenário é bem positivo por uma série de fatores. O setor da reposição automotiva vem crescendo 10% nos últimos anos. O aumento da frota circulante reflete positivamente no setor já que a maioria dos veículos, depois do período da garantia, segue seu curso histórico para as oficinas de confiança para fazer a manutenção. Além disso, a inspeção ambiental em São Paulo, que será ampliada para toda a frota circulante do município, deve impulsionar em cerca de 20% os negócios. Conforme determinação do ministro de Meio Ambiente, o programa será estendido para o Brasil já a partir do próximo ano.
A Inspeção Técnica Veicular começa a sair da gaveta na Câmara dos Deputados, inclusive o GMA e outras entidades do setor automotivo estiveram presentes na audiência pública, no dia 14 de outubro, para discutir o tema. O deputado Hugo Leal (PSC), que convocou a audiência e é vice-presidente da Comissão de Viação e Transportes, ressaltou a importância da Inspeção Técnica Veicular no Brasil para garantir a segurança no trânsito. Também de acordo com o deputado Hugo Leal, apesar da ITV estar prevista no Projeto de Lei 5.979 de 2001, a sua implantação pode se tornar realidade por meio de resolução do Contran, conforme prevê o Código de Trânsito Brasileiro desde 1997.
E o representante do Ministério das Cidades, Elcione Diniz Macedo, afirmou que a Inspeção Técnica Veicular é uma prioridade do governo Lula, o que seria muito importante para reduzir os acidentes que causam 35 mil mortes/ano no Brasil. Por tudo isso, o setor deve continuar a se desenvolver. O trabalho do GMA com a campanha de conscientização pela manutenção preventiva, o programa Carro 100% / Caminhão 100%, tem ajudado a orientar o motorista sobre os cuidados com seu veículo. O setor vive um momento auspicioso.
Mercado Automotivo – Quais são os desafios que profissionais envolvidos na reposição automotiva devem enfrentar?
Alvarenga – Capacitarem-se, capacitarem-se e capacitarem-se, este é o grande trunfo de quem mantém a liderança da manutenção desde que os automóveis começaram a circular neste país. Devem entender, participar e utilizar as normas técnicas brasileiras publicadas pela ABNT-Associação Brasileira de Normas Técnicas, como prevê o Código de Defesa do Consumidor; apoiar a certificação de peças e serviços e estar atentos à nova rota de formação e reciclagem de profissionais estabelecida há pouco pela Secretaria de Educação são vitais para o sucesso neste tipo de negócio. Complementarmente, o esforço junto ao Legislativo para aprovar projetos de lei, como o 322 que trata da regulamentação da operação de oficinas, é fundamental para que este negócio se mostre cada vez mais profissionalizado, pois não cuidamos apenas de veículos, cuidamos de vidas.
Mercado Automotivo – Como tem sido sua atuação para contribuir com a evolução desse setor?
Alvarenga – Acredito que o legado deixado para este importante setor foi ter entendido o mecanismo de funcionamento e seus vícios de repetição e assim ter trabalhado nos alicerces para que pudessem competir com igualdade sem qualquer restrição de entrada no mercado de quem quer que seja. Primeiro, promovi a entrada do setor com assento no Conselho do Comitê Brasileiro Automotivo, chamado de CB-05 na ABNT, o que permitiu a construção de mais de 25 normas brasileiras de serviços automotivos até o presente momento; nesta linha estratégica trabalhei no conceito da importância da qualidade junto à diretoria da época e junto com os colegas da indústria de autopeças, montadoras e demais entidades que formam o universo automotivo; fundamos o IQA-Instituto da Qualidade Automotiva, responsável também por disponibilizar regulamentos de certificação acreditados pelo governo federal através do Inmetro e que exigem normas técnicas brasileiras citadas anteriormente – diria que um dos poucos serviços terciários no País com um programa de certificação da qualidade.
Outro feito foi ter conhecido praticamente toda a estrutura de treinamento da indústria de autopeças e quase todas as escolas Senai do País, que mantêm cursos automotivos, permitindo assim o feito que somente hoje posso falar que é a padronização de treinamentos nas diversas escolas Senai, a princípio no Estado de São Paulo, mas que em breve atingirá todo o País, ou seja, um curso de eletricidade básica dado na cidade de São Paulo será o mesmo dado em Ribeirão Preto, por exemplo. Inúmeros projetos e propostas de regulamentações visando a profissionalização do setor completam a contribuição.
Mercado Automotivo – A captação profissional parece ser o maior obstáculo para o fortalecimento da reposição independente diante das concessionárias. Como mudar esse quadro? E, principalmente, como fazer com que o consumidor final valorize o mercado?
Alvarenga – Promover cursos em parceria com o Senai como prevê o programa do Carro 100% / Caminhão 100% é uma forma de melhorar a capacitação. Não tem jeito, o reparador precisa investir em sua mão de obra. Há excelentes mecânicos no mercado que precisam de atualização profissional. O consumidor final já tem uma boa imagem das oficinas, tanto que a maioria prefere levar o carro em mecânico de confiança porque confia no serviço. A pesquisa da Gipa mostra isso claramente. A frota brasileira depende do setor. O que falta é que o próprio reparador tenha consciência disso. O consumidor prefere as oficinas, o que significa que ele tem uma boa imagem.
Mercado Automotivo – As diferenças regionais no Brasil são também entraves para quem investe na evolução e profissionalização da reposição independente. Como lidar com elas?
Alvarenga – Respeitar o regionalismo local é muito importante, porém algo deve permear sobre todos, ou seja, cuidamos de manutenção veicular e a tecnologia de um veículo que roda no Rio Grande do Sul é a mesma da do que roda em Roraima, portanto, somos pautados por uma mesma tecnologia, o que requer os mesmos conhecimentos. O País tem extensão continental e mesmo com o sistema Senai em todos os pontos e cursos independentes dando atendimento presencial local é inevitável que o sistema de cursos a distância sejam o futuro para que mantenhamos uma comunicação única e complementar aos programas presenciais.
Mercado Automotivo – A entrada de novas tecnologias e empresas estrangeiras no Brasil obrigou aqueles que atuam na reposição independente a reformular seus modelos de gestão e estruturas. Muitas empresas venceram esse desafio, outras viramse obrigadas a fechar as portas ou foram incorporadas a outros grupos. A que, na sua opinião, deve-se o sucesso daquelas que se mantiveram no mercado?
Alvarenga – Acredito que uma visão equivocada do negócio e da cultura local tenha provocado alguns insucessos, mas o desconhecimento de gestão do negócio ainda é o entrave mais pesado para estes empresários. Foco é outro ponto importante, pois o mercado já permite, por exemplo, fazer com que uma empresa se especialize em veículos por origem de produção (alemães, franceses, japoneses, coreanos, etc.), ou por sistemas (transmissão automática, climatização, etc.).
Investimento, coragem e persistência em acreditar no próprio negócio e muito trabalho. São empresários que buscam fazer o melhor para garantir a satisfação de seus clientes e, com isso, se tornaram ilhas de excelência.
Mercado Automotivo – Muito se tem falado sobre o direito do reparador de acesso a informações técnicas das montadoras. Como está essa discussão no Brasil? O que o Sindirepa tem feito para defender os interesses daqueles que atuam na reparação de automóveis?
Alvarenga – No Seminário da Reposição Automotiva tivemos a oportunidade de conhecer as experiências de outros países, o que foi muito valioso, pois o problema é mundial e aqui no Brasil pouco se fala sobre o assunto. O tema é bem polêmico e delicado.
Ao assistir a palestra do vice-presidente da AAIA - Automotive Aftermarket Industry Association, Aaron Lowe, que falou sobre o Right to Repair, vemos que a luta dos norte-americanos, que estão desde 2001 nesse embate, parece não ter fim. Eles já começaram a se mexer. Nós também precisamos nos mobilizar. O assunto já está na pauta do GMA. Em resumo, é uma estupidez imaginar que podemos cercear o direito de escolha do consumidor.
Mercado Automotivo – Não há dúvidas de que a pirataria interfere de forma negativa nos negócios da reparação, inclusive interfere para a construção de uma imagem negativa do setor entre os consumidores. De que maneira o Sindirepa age para orientar o reparador sobre os danos causados pelo uso indevido das peças falsificadas e, principalmente, como pressionar o governo a agir de maneira mais rigorosa no combate à pirataria de autopeças?
Alvarenga – Este é um assunto que não pode ser resolvido de forma isolada, ou seja, não se trata de um problema unilateral, mas um problema que atinge toda a sociedade brasileira e no setor automotivo, todos os elos que o compõe. Inicialmente estamos fortalecidos pelo GMA, mas no médio e longo prazos deveria ser tratado em conjunto com montadoras e concessionárias e demais agentes econômicos que orbitam em torno do setor automotivo, pois pirataria significa desemprego, sonegação fiscal, crime e em nada, nada mesmo, colabora para um País que vem se posicionando igualitariamente com os países mais desenvolvidos.
As ações consistem em elaborar normas técnicas para inibir a importância duvidosa no que tange à qualidade já nos portos; a certificação compulsória para definitivamente exigir de quem importa atender requisitos mínimos de obediência; comunicação constante das ocorrências para que evitem a compra em locais de origem e procedência duvidosas; atuação junto ao Fórum Contra a Pirataria e a Ilegalidade.
Mercado Automotivo – Enfim, quais são seus principais projetos e metas para 2010?
Alvarenga – Fortalecimento do programa de manutenção preventiva Carro 100% / Caminhão 100% / Moto 100% em conjunto com as entidades Sindipeças, Andap/Sicap e Sincopeças; atualização do projeto de pré e pós inspeção veicular articulado junto com a prefeitura de São Paulo, mas que deverá se estender para o restante do Estado de São Paulo, incrementando os negócios em 20%; inovar com projetos de atendimento sobre informações técnicas, otimizar os indicadores que norteiem a tomada de decisões, além de dar continuidade ao alicerce já comentado anteriormente de suportar a elaboração de normas técnicas, ajustar a certificação e melhorar a disponibilidade de treinamentos.
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